IARAA: Inteligência Artificial a serviço do campesinato e da soberania alimentar no Brasil

No Brasil, a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) uniram esforços com a Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab) para a elaboração de um projeto inovador de Inteligência Artificial voltado à promoção da agroecologia e da reforma agrária por meio do fortalecimento da soberania digital popular. A IARAA, Inteligência Artificial da Reforma Agrária e da Agroecologia, foi lançada em maio de 2026 e chega como uma ferramenta inovadora feita por e para movimentos sociais diretamente envolvidos na luta pela terra e pela produção de alimentos saudáveis no país.

A inteligência artificial, controlada pelas grandes empresas transnacionais de tecnologia do Norte Global, reforça as estruturas de poder capitalistas e molda a agricultura mundial. A IARAA tem como objetivo reorientar essa tecnologia para que esteja a serviço dos povos e das comunidades rurais e, assim, romper com o monopólio tecnológico. Dessa forma, contribui para fortalecer a soberania alimentar e construir sistemas agroalimentares mais justos, democráticos e sustentáveis, transformando a tecnologia em uma verdadeira ferramenta de emancipação e justiça social para o campesinato.

Para compreender melhor este projeto e inspirar movimentos rurais em diferentes partes do mundo, a plataforma Defendendo os Direitos Camponeses realizou a presente entrevista com representantes dos movimentos que idealizaram e construíram essa iniciativa:

1. O que é a IARAA e como surgiu a iniciativa dentro da Marcha Mundial das Mulheres e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra?

A IARAA é a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e da Agroecologia, uma ferramenta criada pelos movimentos populares que nasce com o propósito de democratizar o saber agroecológico e fortalecer a Reforma Agrária Popular. Ela nasceu a partir do Curso de Inteligência Artificial para Movimentos Populares do Sul Global, que aconteceu em Xangai, em julho de 2025. Naquele momento, além de se apropriar de forma crítica e tecnicamente das tecnologias envolvidas na IA, militantes dos movimentos de diversos países tiveram contato com o modelo chinês de desenvolvimento tecnológico. Essa experiência nos levou a elaborar sobre a construção da luta por soberania tecnológica nos nossos países, e a criar ferramentas para travar essa disputa.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil (MST) e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) estiveram na construção deste curso e, junto da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab), decidiram criar a IARAA para que ela fosse uma ferramenta para a massificação da agroecologia, do feminismo popular e da nossa perspectiva sobre soberania tecnológica no Brasil.

Para construir a base de conhecimento que alimenta a ferramenta, reunimos uma equipe de especialistas em agroecologia oriundos do MST e da Marcha Mundial das Mulheres, representando todas as regiões do Brasil. Foram esses companheiros e companheiras que definiram os fundamentos conceituais, políticos e técnicos que orientam as respostas da IARAA. Ao mesmo tempo, formamos militantes dos próprios movimentos nas áreas mais técnicas do desenvolvimento de IA, particularmente nas arquiteturas de RAG que sustentam a ferramenta. Não queríamos depender de uma equipe técnica externa que não compreendesse o projeto político, mas sim formar militantes que compreendessem esta aposta política em todas as suas dimensões. Contamos com o apoio de aliados internacionalistas com mais experiência acumulada no desenvolvimento de ferramentas de RAG, e essa colaboração foi fundamental.

Evento de lançamento da IARAA em São Paulo, 16 de maio de 2026.
Crédito: Marcha Mundial das Mulheres Brasil

2. Como vocês definem o papel da IARAA dentro da estratégia mais ampla da luta popular pela soberania alimentar?

A IARAA não é uma ferramenta isolada. Ela é parte de um projeto estratégico maior. Se soma às diferentes formas de luta que buscam superar o modelo do agronegócio. Ela é uma ferramenta que busca fortalecer a agroecologia nos territórios, compreendida pelos movimentos como perspectiva estratégica de projeto político e de enfrentamento à crise ambiental imposta pelo agronegócio. Socializar o acúmulo de conhecimento agroecológico constitui uma das tarefas fundamentais nessa batalha.

O perfil Semeadura responde a quem está no campo e precisa de uma orientação prática e rápida. O perfil Mutirão vai além: ele foi desenvolvido para apoiar técnicos, lideranças e educadores populares na organização de processos participativos e de formação de base, sendo um instrumento de apoio não só à produção, mas à própria organização popular nos territórios. Já o perfil Quintal Produtivo oferece uma capacidade diferenciada de lidar com conceitos, discussões teóricas e fundamentos políticos da agroecologia em profundidade, servindo como referência para estudo, elaboração teórica e formação de militantes, estudantes e quadros dos movimentos.

Ao oferecer um repositório de conhecimento agroecológico curado pelos movimentos, a IARAA contribui para que cada pessoa que a utiliza chegue mais preparada às visitas técnicas, aos mutirões, às escolas do campo e às assembleias. Ela potencializa o que já existe e fortalece a luta pelo que ainda precisa ser conquistado. A IARAA também demonstra, na prática, que os movimentos populares são capazes de criar suas próprias ferramentas tecnológicas. Isso não é pouca coisa num mundo em que o desenvolvimento de inteligência artificial está concentrado nas mãos de poucas corporações transnacionais. Mas ela ainda é uma experiência muito limitada, principalmente pela falta de infraestrutura. A superação dessa dependência tecnológica exige uma estratégia de soberania digital popular, que precisa estar de mãos dadas com a luta por soberania alimentar e soberania energética.

3. Como a IARAA incorpora uma perspectiva feminista e contribui para enfrentar desigualdades de gênero no acesso à tecnologia e na produção de conhecimento no campo?

Nossa perspectiva não é só de garantir o acesso das mulheres à tecnologia, mas sim colocar as mulheres como sujeito da tecnologia. Quando as mulheres não participam da concepção, do desenvolvimento e do controle das ferramentas digitais, essas ferramentas provavelmente não irão responder às demandas da vida das mulheres. Isso tem consequências concretas: a maior parte das IAs comerciais carrega vieses de gênero profundos, não reconhece o trabalho não pago das mulheres na reprodução da vida quando pensa em “economia”, e trata a agricultura como se fosse uma atividade neutra, sem considerar que a forma das mulheres de fazer agricultura é específica, diversa e é ela que, em grande medida, sustenta a vida.

Na IARAA, enfrentamos isso em várias dimensões. Primeiro, na base de conhecimento: incluímos um conjunto amplo de materiais sobre feminismo popular e agroecologia feminista, para que a ferramenta se baseie nessas elaborações ao construir suas respostas, e não nos referenciais androcêntricos que dominam a produção de conhecimento hegemônica. Segundo, na orquestração da ferramenta: há princípios do feminismo popular embutidos nas instruções que orientam a IARAA, fazendo com que ela sempre considere a divisão sexual do trabalho, a necessidade de construção do feminismo popular e a superação do patriarcado quando está elaborando uma resposta. Terceiro, na equipe: contamos com uma coordenação técnica e política com muitas mulheres, o que posiciona uma outra forma de fazer tecnologia, a partir de outros saberes, outras perguntas e outras prioridades.

A IARAA é programada para fortalecer e visibilizar as experiências das mulheres no campo, reconhecendo o trabalho invisível que elas realizam e sendo um apoio concreto para a organização da sua luta, reconhecendo-as como sujeito da agroecologia.

4. De que forma a IARAA pode contribuir concretamente para a implementação dos direitos previstos na UNDROP, especialmente o direito à informação (art. 11), aos meios de produção (art. 16), à reforma agrária (art. 17) e à soberania alimentar (art. 15)?

A UNDROP é um marco fundamental porque reconhece que camponesas e camponeses têm direitos específicos que o sistema capitalista nega sistematicamente. A IARAA se posiciona como um instrumento de apoio na luta pela efetivação desses direitos.

Em relação ao direito à informação, o que vemos é que diferente dos chatbots comerciais que simplificam respostas e homogeneizam práticas, a IARAA está sendo programada para considerar a diversidade de biomas, sistemas de produção, organização social e condições materiais dos territórios em suas respostas. O direito à informação de qualidade, referenciada politicamente, contextualizada e em linguagem acessível é central na IARAA.

Quanto aos meios de produção e à soberania alimentar, as empresas transnacionais como John Deere, BASF e Microsoft tem avançado muito na Agricultura 4.0, implantando sistemas tecnológicos que capturam dados de centenas de milhares de hectares pelas big techs. Com isso, concentram mais e mais poder e ganham mais força para avançar com seu projeto de destruição. A IARAA vai na direção oposta, coloca tecnologia avançada a serviço das famílias camponesas, potencializando sua capacidade produtiva sem gerar dependência tecnológica e dando recomendações alinhadas com a agroecologia, a organização popular e a diversidade dos sistemas de produção.

Sobre a reforma agrária, acreditamos que a IARAA é um instrumento para apoiar a luta e avançar a organização e a massificação da agroecologia. A Reforma Agrária Popular se consolida na capacidade das famílias camponesas de produzir, permanecer e se organizar no território conquistado. Uma comunidade que acessa conhecimento agroecológico qualificado e politicamente orientado produz melhor, diversifica sua produção, reduz a dependência de insumos externos e fortalece sua autonomia. Ao mesmo tempo, a IARAA apoia as lideranças e técnicos que trabalham nos assentamentos na organização de processos formativos, no planejamento produtivo coletivo e na sistematização de experiências que podem circular entre territórios. Ela contribui também para a formação política de militantes e estudantes que precisam se apropriar dos fundamentos teóricos da questão agrária e da agroecologia para atuar na luta.

IARAA disponível para testes durante o evento de lançamento.
Crédito: Marcha Mundial das Mulheres Brasil

5. Qual o papel da cooperação internacional, através da parceria com a China, na implementação projeto? Como tem se dado essa parceria?

A parceria com a Baobab e companheiros e companheiras da China foi central para que a IARAA se tornasse realidade. Ver o modelo chinês de desenvolvimento tecnológico de perto nos deu muitas inspirações: um modelo em que o Estado orienta a tecnologia para servir ao povo, em que dados são tratados como fator de produção a serviço de um projeto coletivo. Contamos com apoio técnico concreto de companheiros que vivem numa sociedade em que esse debate e esse desenvolvimento estão mais avançados, que já acumularam experiência no desenvolvimento de ferramentas de RAG e de modelos de linguagem de código aberto. Nesse sentido, esta foi e continua sendo uma parceria fundamental.

Ao mesmo tempo, sabemos que é necessário, desde o Brasil, fazermos nossas próprias ferramentas baseadas na luta dos movimentos dos nossos movimentos e enraizadas na nossa realidade. A realidade de dependência tecnológica, de baixa industrialização e de investimento historicamente insuficiente em ciência e tecnologia que marca o Brasil e grande parte do Sul Global pesa concretamente sobre a possibilidade de desenvolver projetos como a IARAA. Nesse sentido, a cooperação Sul-Sul é fundamental para viabilizar experiências, compartilhar conhecimento técnico e construir juntos projetos que tenham a nossa cara e se prestem a resolver os nossos próprios problemas.

6. Como garantir que o conhecimento camponês não seja diluído dentro da lógica hegemônica da IA? E como ampliar o uso da IARAA em escala sem perder a sensibilidade às realidades locais?

A lógica dos grandes modelos de linguagem tende à homogeneização e a reprodução de vieses que reproduzem a lógica da agricultura comercial. Para lidar com isso, fizemos diversas adequações na arquitetura do sistema da IARAA. Um dos elementos centrais disso é a base de conhecimento, que é formada por documentos produzidos pelos movimentos e por instituições de pesquisa comprometidas com a agroecologia (cartilhas, manuais técnicos, sistematizações de experiências territoriais, materiais de formação, publicações científicas agroecológicas e elaborações políticas dos próprios movimentos). Por funcionar sobre uma arquitetura RAG, a IARAA não vai buscar suas respostas na internet nem nos repositórios genéricos que alimentam as IAs comerciais, repletos dos vieses do agronegócio e do pensamento hegemônico sobre agricultura.

A base de conhecimento da IARAA foi construída com atenção à diversidade dos territórios brasileiros: há materiais sobre diferentes biomas, sistematizações de experiências agroecológicas de distintas regiões do país, e elaborações que contemplam diferentes sistemas produtivos, culturas e condições climáticas. Essa diversidade é intencional e busca garantir que a ferramenta tenha capacidade real de lidar com situações específicas, e não apenas com uma agricultura genérica e descontextualizada. Ainda assim, com certeza há perguntas para as quais a IARAA ainda não tem resposta suficiente na sua base, e nesses casos ela é orientada a não inventar. Nessas situações, a IARAA estimula que a pessoa busque a informação com as organizações e companheiros do seu território. Ela foi construída para não se colocar como ponto final de uma conversa, mas como um ponto de partida: ela encoraja o diálogo na comunidade, a troca de saberes entre vizinhos, a consulta às lideranças locais. A interação com a ferramenta deve abrir portas para a organização coletiva.

Um dos maiores desafios da construção da IARAA consiste justamente em reunir todo esse acervo em formato escrito para que ele sirva como base de conhecimento da IA, uma vez que se encontra disperso em múltiplos repositórios e, por vezes, existe apenas na forma oral. A IARAA não substitui o saber dos povos. Ela pode amplificá-lo e facilitar sua circulação entre diferentes territórios e gerações, e precisa estar em constante processo de aperfeiçoamento pelos movimentos para continuar cumprindo este papel.

7. De que forma a IARAA pode ser articulada com a política pública de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) destinada a camponeses e pequenos agricultores no Brasil, garantindo que atue como instrumento de fortalecimento da assistência técnica, e não como mecanismo de substituição do trabalho técnico humano no campo?

Um dos princípios da IARRA é que ela é ferramenta de apoio e não de substituição à ATER. A ausência ou precariedade da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) pública em grande parte dos territórios brasileiros é uma realidade que não podemos ignorar. A ampliação da ATER de base agroecológica como um direito é uma luta histórica dos movimentos, e acreditamos que nenhuma ferramenta tecnológica irá substituir este trabalho. Mas a IARAA pode ter um papel concreto e imediato a cumprir: ser um apoio confiável à produção agroecológica no agora. Há, no entanto, limites que a ferramenta jamais poderá cruzar: a análise sistêmica sobre o agroecossistema, o vínculo de confiança construído ao longo do tempo entre técnico(a) e família agricultora, a leitura do território feita por quem o conhece de perto em todas as suas dimensões. A IARAA inclusive é programada para estimular que as pessoas procurem pela ATER de seu território e exijam este direito.

8. Quais são os desafios de traduzir processos de formação política e de consciência de classe em uma ferramenta de inteligência artificial?

Isso ainda é um grande desafio, porque a nossa inteligência coletiva como movimentos não vive só nos documentos que escrevemos. Ela vive nas interações, nas vivências políticas que temos com o corpo, não só com a cabeça. Mas o acúmulo técnico que construímos, especialmente com companheiros e companheiras que dominam o desenvolvimento de arquiteturas RAG, nos permitiu ir além do que imaginávamos ser possível no início neste quesito. Conseguimos materializar vários dos nossos princípios políticos na arquitetura da ferramenta, e estes são de fato levados em consideração de forma rigorosa na maioria das respostas. Isso só foi possível porque as pessoas que desenvolveram a ferramenta entendiam profundamente tanto a tecnologia quanto o projeto político.

Publicaciones Similares